Primeiro romance solo do autor reúne horror psicológico, suspense investigativo e elementos de folk horror em uma história marcada por luto, memória e uma entidade que atravessa gerações

O escritor Marlos Miranda Quintanilha, de Itaboraí, prepara o lançamento de “Valentim”, seu primeiro romance solo, publicado pela Editora Alarde.
Conhecido pela participação em antologias literárias e pela produção de contos e roteiros, Quintanilha estreia no romance com uma história que mistura horror psicológico, suspense investigativo e elementos de folk horror, tendo como um dos principais cenários a Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.
A narrativa parte de uma antiga tragédia ocorrida em 1284, na cidade alemã de Hamelin. A partir de um ritual criado para tentar ressuscitar um filho morto, nasce uma entidade sobrenatural associada à música de uma flauta, a desaparecimentos e a ciclos de morte que atravessam gerações.
Séculos depois, essa história chega ao Rio de Janeiro.
Uma história entre o passado e o presente
Em “Valentim”, a pesquisadora Amanda Zimmermann começa a ter pesadelos recorrentes envolvendo uma floresta, uma voz misteriosa e uma presença que parece conhecer detalhes de sua vida.
A situação muda quando um antigo relicário ligado à família é ativado.
A partir daí, mortes e desaparecimentos começam a acontecer entre Paquetá e Niterói. Ao mesmo tempo, Amanda descobre que seus antepassados guardavam uma relação antiga com aquilo que chamavam de Valentim.
A investigação também envolve o delegado Miguel Velasco, que passa a identificar padrões entre os acontecimentos.
As vítimas parecem estar relacionadas a uma misteriosa flauta, enquanto elementos como água, mata e a própria história da família Zimmermann passam a fazer parte de uma sequência ritualística.
No decorrer da história, Amanda descobre que o relicário não funcionava exatamente como uma prisão, mas como um selo temporário.
A ameaça, então, assume outra dimensão.
Valentim não é apresentado apenas como uma criatura que mata. A entidade observa, aprende, manipula e conduz suas vítimas, estabelecendo uma relação com memória, trauma e repetição.
Da ideia de um conto ao primeiro romance
A origem de “Valentim” está em um conto chamado “Dançando para a Morte”, escrito por Marlos durante um curso de escrita criativa com a autora Débora Gimenes.
Segundo o escritor, aquele primeiro texto despertou a percepção de que havia uma história maior por trás da ideia.
“Comecei a desenvolver personagens, conflitos e uma mitologia própria, até perceber que aquilo não caberia mais em um conto”, relata.
O projeto, entretanto, ficou parado durante alguns anos.
Foi depois de um amigo ler o conto e apresentar perguntas e teorias sobre a história que Quintanilha retomou o projeto.
Foi desse processo que nasceu “Valentim”.
Paquetá como parte da narrativa
A escolha da Ilha de Paquetá como cenário não aconteceu por acaso.
Segundo o autor, a relação com o local é afetiva e está diretamente ligada à atmosfera que ele buscava para a história.
Para Quintanilha, a ilha possui uma relação particular com o tempo, a memória e a sensação de isolamento — elementos que acabaram incorporados à construção do romance.
Essa escolha também aproxima a narrativa de cenários conhecidos do público fluminense.
Embora a história tenha origem em uma tragédia ocorrida na Europa medieval, seus acontecimentos contemporâneos se desenvolvem em locais reconhecíveis do Rio de Janeiro, especialmente Paquetá e Niterói.
Horror além do medo
Apesar de “Valentim” ser apresentado como uma obra de horror, o autor afirma que a história não foi construída apenas para provocar medo.
A narrativa também aborda temas como fé, culpa, escolhas, obsessão, luto e os limites que uma pessoa pode ultrapassar quando acredita estar fazendo aquilo que considera certo.
“É uma história de horror, mas também é uma história sobre seres humanos”, explica Marlos.
A proposta aparece também na construção da própria entidade.
Em vez de funcionar apenas como um antagonista tradicional, Valentim é apresentado como uma presença que observa e aprende com as pessoas, estabelecendo uma relação com os traumas e memórias daqueles que encontra.
Uma trajetória construída em contos e antologias
A publicação do romance representa uma nova etapa na trajetória literária de Marlos Quintanilha.
O escritor afirma que escreve há aproximadamente uma década e já produziu mais de 70 contos e participou de cerca de 70 antologias literárias.
Também desenvolveu quatro roteiros para histórias em quadrinhos.
Entre os reconhecimentos recebidos ao longo da carreira estão participações como semifinalista e finalista do Prêmio ABERST, em 2021 e 2022.
Antes de “Valentim”, portanto, a trajetória do autor foi construída principalmente por meio de contos, coletâneas e projetos colaborativos.
O novo livro representa sua estreia como autor de um romance solo.
Literatura conciliada com a vida profissional
Além da carreira literária, Marlos trabalha na área de tecnologia, com implantação e acompanhamento de soluções de telemetria para empresas de transporte de passageiros.
A rotina envolve viagens, visitas técnicas, reuniões e acompanhamento de projetos.
Para ele, conciliar o trabalho com a literatura significa aproveitar os momentos disponíveis para escrever.
Nem sempre, explica, existe um cenário ideal para a criação.
Uma ideia pode surgir durante uma viagem, em um hotel, dentro de um ônibus ou durante uma atividade cotidiana.
Essa experiência também acaba alimentando sua produção literária.
Pessoas, lugares, conversas e situações vividas podem se transformar em matéria-prima para novas histórias.
O significado de publicar “Valentim”
Para Marlos Quintanilha, a publicação do livro representa a realização de um projeto construído ao longo de vários anos.
O escritor vê a literatura como uma forma de organizar sentimentos, memórias, medos e questionamentos.
“Valentim” reúne parte dessas experiências em uma narrativa que utiliza o horror como caminho para falar também sobre aspectos humanos.
A obra chega ao público pela Editora Alarde e marca uma mudança importante na trajetória do autor: depois de anos participando de antologias, ele passa a apresentar ao leitor um universo narrativo próprio em formato de romance.
“Não estou apenas colocando uma história no mundo. Estou compartilhando uma parte de mim que levou anos para encontrar a forma certa de ser contada”, afirma.
Um convite ao leitor
Com uma história que conecta uma lenda medieval, uma família marcada por gerações de segredos e cenários do Rio de Janeiro, “Valentim” aposta na combinação entre investigação, sobrenatural e horror psicológico.
A obra também coloca em primeiro plano questões sobre herança familiar, luto, culpa e obsessão.
E, para o autor, existe ainda um objetivo além da última página.
A expectativa é que a história continue na mente do leitor mesmo depois do encerramento do livro.
“Porque, no fim, acredito que é isso que uma boa história deve fazer: terminar nas páginas, mas continuar existindo na cabeça e no coração de quem a leu.”
“Valentim” é publicado pela Editora Alarde e marca a estreia de Marlos Quintanilha no romance solo.
SOBRE O AUTOR
Marlos Miranda Quintanilha é escritor, cronista e roteirista carioca. Ao longo de aproximadamente uma década de produção literária, participou de cerca de 70 antologias e escreveu mais de 70 contos, além de quatro roteiros para histórias em quadrinhos.
Foi semifinalista e finalista do Prêmio ABERST em 2021 e 2022.
Com “Valentim”, realiza sua estreia como autor de um romance solo.
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