Escritor e psiquiatra foi oficializado pelo Avante e aposta em educação, empreendedorismo, saúde mental e mudanças institucionais para se apresentar como alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro
O escritor e psiquiatra Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, vem buscando ocupar um espaço próprio na corrida eleitoral de 2026, apresentando-se como uma alternativa ao cenário de polarização política entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Oficializado pelo Avante em convenção realizada em São Paulo, Cury disputa pela primeira vez um cargo eletivo. Sua campanha tem como um dos principais eixos o discurso de redução da polarização e de defesa de uma política baseada em projetos.
O plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral reúne 200 páginas e está organizado em 18 projetos estruturais. Entre os temas estão educação, empreendedorismo, saúde, segurança, meio ambiente, energia, agricultura, tecnologia, inclusão e mudanças na estrutura do Estado.
Semipresidencialismo e reforma do STF
Uma das propostas mais significativas apresentadas por Cury é a mudança do sistema presidencialista para o semipresidencialismo.
Na proposta, o presidente continuaria exercendo funções de chefe de Estado, enquanto um primeiro-ministro, apoiado pela maioria parlamentar, assumiria a condução cotidiana do governo. O candidato também defende que uma eventual mudança seja submetida à população por meio de plebiscito.
O candidato também propõe mudanças no Supremo Tribunal Federal. No plano registrado no TSE, aparece a previsão de mandato de oito anos para os ministros, além da redução da composição da Corte de 11 para nove integrantes.
A proposta representa uma mudança importante em relação ao modelo atual e, por envolver alterações institucionais e constitucionais, dependeria do processo legislativo e das regras previstas na Constituição.
Responsabilidade fiscal e redução de gastos
Na área econômica, Cury estabelece como uma das metas a busca por um déficit público próximo de zero durante o mandato.
O plano também prevê controle mais rigoroso dos gastos públicos, avaliação permanente dos resultados dos ministérios, redução gradual da dívida pública e uma reforma administrativa voltada à simplificação da estrutura do Estado.
O candidato também propõe revisar a divisão federativa dos tributos, com maior participação dos municípios, além de defender simplificação tributária e redução da burocracia.
Outra frente seria a digitalização da administração pública. A proposta prevê serviços públicos integrados em plataformas digitais, metas para os ministérios e utilização de inteligência artificial para identificar fraudes, desperdícios, sobrepreços e pagamentos irregulares.
Empreendedorismo como eixo econômico
O empreendedorismo ocupa posição central no programa.
Cury propõe a criação de 10 mil Escolas de Empreendedorismo, além de um Banco do Empreendedor voltado a pequenos negócios, microempresas e startups.
O plano estabelece ainda a meta de formar milhões de novos empreendedores e simplificar a abertura de empresas.
Entre as propostas está também a criação de um Ministério ou Secretaria Executiva do Empreendedorismo e da Economia Distribuída. O projeto prevê 10 mil clubes de empreendedorismo em escolas, universidades, igrejas e comunidades.
O programa também fala em linhas de crédito de até R$ 20 mil, com juros de 5% a 6% ao ano, destinadas a iniciativas de pequeno porte.
E o Bolsa Família?
Uma das propostas apresentadas pelo candidato é alterar a lógica de transição do Bolsa Família.
A ideia é permitir que beneficiários que consigam emprego formal ou abram uma microempresa continuem recebendo o benefício durante determinado período, evitando que a entrada no mercado de trabalho provoque uma perda imediata da renda familiar.
O programa também seria utilizado, segundo o plano, como instrumento de estímulo ao empreendedorismo.
Educação como prioridade
A educação é apresentada no plano como uma das principais prioridades estratégicas do governo.
O chamado Projeto 1 — A Revolução da Educação propõe uma mudança no modelo educacional, com maior valorização dos professores, formação de pensadores, desenvolvimento do pensamento crítico e atenção à saúde emocional de estudantes e educadores.
O programa também defende uma educação capaz de preparar os estudantes para as transformações provocadas pela inteligência artificial e pela robótica.
Na visão apresentada pelo candidato, a escola não deve apenas transmitir informações, mas desenvolver criatividade, autonomia, comunicação, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas.
Brasil Neuroinclusivo
Outra proposta do plano é o Brasil Neuroinclusivo, voltado principalmente a pessoas com autismo, TDAH, dislexia, transtornos de aprendizagem e altas habilidades.
O projeto prevê adaptações pedagógicas, formação de professores, prevenção ao bullying, integração entre escolas, famílias e serviços de saúde e a criação de um Mapa Nacional da Neurodiversidade.
A proposta também prevê formação nacional de professores para identificar sinais que mereçam avaliação profissional, sem transformar educadores em diagnosticadores.
Mulheres e combate ao feminicídio
O programa Mulheres Vivas propõe uma política nacional de prevenção ao feminicídio e de enfrentamento à violência contra a mulher.
Entre as medidas estão integração entre forças de segurança, Justiça, assistência social e saúde; uso de tecnologia para prevenção; botões de alerta com geolocalização; aplicativos de emergência; monitoramento eletrônico de agressores nos casos determinados judicialmente e acompanhamento prioritário de mulheres classificadas como de alto risco.
O projeto também inclui qualificação profissional, empreendedorismo, educação financeira, microcrédito e outras medidas de autonomia econômica para mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade.
Saúde e telemedicina
Na área da saúde, uma das propostas é transformar o Brasil em referência mundial em telemedicina pública.
O projeto prevê uma plataforma nacional integrada, utilizando inteligência artificial para triagem inicial, classificação de risco e organização de informações antes da consulta médica.
Uma das metas apresentadas é oferecer atendimento digital em até 30 minutos para casos compatíveis com telemedicina.
A proposta também prevê pontos públicos de acesso digital em unidades de saúde, escolas, centros comunitários e municípios ou regiões com dificuldade de conexão.
O plano deixa explícito que a telemedicina não substituiria os atendimentos presenciais, mas seria utilizada para reorganizar o fluxo do sistema e reduzir filas e deslocamentos desnecessários.
Prevenção e diagnóstico precoce do câncer
Outro projeto é o Sociedade Está Abraçando (SEA), voltado à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer.
A proposta inclui educação preventiva, campanhas nacionais, utilização de tecnologia, comitês municipais e ampliação do rastreamento.
O programa também pretende utilizar a experiência do Hospital de Amor, de Barretos, como uma das referências para a construção da política nacional.
Energia, indústria e recursos naturais
Na área econômica e ambiental, o plano também prevê investimentos em energias renováveis.
O projeto PENER-BR propõe transformar o Brasil em potência mundial em energia limpa, com investimentos em energia solar, eólica, hidrogênio verde, energia oceânica e biomassa. A meta apresentada inclui alcançar 90% de matriz energética limpa até 2040.
Outro projeto trata das terras raras e minerais estratégicos brasileiros, com a proposta de ampliar o processamento e a industrialização desses recursos no país, em vez de concentrar a atividade na exportação de matérias-primas.
O discurso de Cury ganhou visibilidade no primeiro debate
A candidatura ganhou maior exposição nacional após o primeiro debate presidencial de 2026, realizado pela Band no dia 23 de agosto.
O encontro contou apenas com Augusto Cury, Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não participaram. O episódio foi marcado justamente pelas críticas às ausências dos três candidatos.
Cury chegou a sinalizar que poderia não participar do debate, mas acabou entrando no confronto. Durante o encontro, apresentou propostas relacionadas à educação, segurança, economia, relações internacionais e combate à corrupção.
A participação ampliou a exposição do candidato, especialmente por ele ter utilizado o debate para reforçar a defesa de uma alternativa à polarização.
Isso, porém, ainda não se traduziu em uma mudança significativa nas pesquisas eleitorais.
Pesquisas ainda mostram Cury distante dos líderes
Os levantamentos mais recentes disponíveis mostram Cury com 2% das intenções de voto tanto no Datafolha quanto no BTG/Nexus, dentro dos cenários divulgados em agosto.
No BTG/Nexus, divulgado em 24 de agosto, Lula aparece com 41%, Flávio Bolsonaro com 37%, Ronaldo Caiado com 5%, Renan Santos e Romeu Zema com 3% cada, Cury com 2% e Samara Martins com 1%.
No Datafolha, divulgado em 21 de agosto, Lula aparece com 39%, Flávio Bolsonaro com 33%, Caiado com 5%, Renan Santos com 4%, Zema com 3% e Cury com 2%.
Os números representam o cenário no momento de cada levantamento e não permitem, isoladamente, concluir qual será o desempenho final dos candidatos.
Sabatinas também ampliaram a exposição
Antes do debate da Band, Cury participou de uma sabatina promovida pelo SBT e pelo SBT News, em 18 de agosto.
Na entrevista, voltou a defender o semipresidencialismo e a reforma do STF, incluindo mandato de oito anos para ministros da Corte. Também falou sobre um pacto nacional com o Centrão e mudanças no Bolsa Família.
Em outra sabatina, promovida pela União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), Cury afirmou que pretende realizar ajustes na reforma tributária e propôs uma transição diferente para beneficiários do Bolsa Família que conseguirem emprego ou se tornarem MEIs.
A exposição deve aumentar nos próximos dias. Cury está entre os candidatos que participarão da rodada de entrevistas da TV Globo. A entrevista está prevista para 29 de agosto, após o Jornal Nacional.
Uma candidatura que tenta ocupar o espaço fora da polarização
A principal característica da candidatura de Augusto Cury é justamente a tentativa de construir uma identidade política distante da divisão tradicional entre direita e esquerda.
Seu plano fala em responsabilidade fiscal combinada com políticas sociais, empreendedorismo, educação, saúde mental, inovação tecnológica e fortalecimento da democracia por meio do diálogo.
A estratégia, entretanto, ainda enfrenta o desafio de transformar reconhecimento como escritor e a maior exposição obtida nos debates e sabatinas em crescimento eleitoral.
Para o eleitor, além do discurso, a análise das propostas envolve questões como custo, fonte de recursos, viabilidade jurídica, capacidade de execução e resultados esperados.
O plano completo de governo de Augusto Cury pode ser consultado pelo leitor no documento oficial disponibilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
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